
20110205
hereafter - clint eastwood

20090401
gran torino - clint eastwood

Já passou mais de uma semana desde que vi Gran Torino e ainda hoje penso em Walt Kowalski, a última personagem encarnada por Clint Eastwood no último filme por si dirigido. Começando pelo que deveria vir no final do texto: este ano dificilmente surgirá melhor filme nas salas de cinema. Dito isto, resta realçar a forma como Eastwood consegue, com este filme, atingir a perfeição na arte de narrar uma história.
Parecem ser cada vez mais os filmes em que, terminado o filme, pouco ou nada sabemos das personagens que acabámos de ver. E muitas das vezes, essas mesmas personagens passam todo o filme a falar de si próprias. Over and over again. Eastwood, pelo contrário, consegue mostrar-nos neste Gran Torino, em menos de duas horas, toda a vida de Kowalski, personagem de poucas palavras. E quando falo aqui de toda a vida, não me refiro apenas a passado e presente numa perspectiva temporal. Toda a vida inclui sentimentos e pensamentos. Tudo aquilo que distingue uma pessoa de qualquer outra. E isto tudo sem qualquer recurso a flashbacks ou preguiçosos monólogos descritivos. O truque, é sabido de muitos, mas poucos são aqueles que o conseguem praticar. Conhecer ao pormenor as personagens e saber muito bem aquilo que se quer contar. Ou, no minímo, ter algo para contar. E Eastwood tem. Quase sempre o mesmo (a justiça e todas as suas derivações e implicações, filosóficas ou sociológicas) e cada vez com maior urgência, precisão e engenho.
Mas quaisquer palavras por mim escolhidas, ou frases por mim construidas, serão sempre insuficientes perante uma obra desta grandeza. Só me resta acrescentar humildemente que, se o cinema (ainda) me apaixona, é por filmes como este. E não consigo deixar de repetir: este ano muito dificilmente surgirá nas salas de cinema um filme melhor que este Gran Torino.
5/5
20090218
allen vs eastwood

1971. Woody Allen e Clint Eastwood davam os seus primeiros passos como realizadores. Allen em comédias estupidamente sem piada (Bananas e Everything You Always Wanted To Know About Sex…). Eastwood tentando libertar-se de obsessões, e colocando-se bem no meio do furacão que são as emoções humanas com Play Misty For Me, equanto, como actor, fazia o papel do justiceiro Dirty Harry. Quase trinta anos depois, Allen volta às suas comédias sem piada. Menos estúpidas na forma, mas com resultados ainda mais desastrosos no conteúdo. Eastwood, por seu lado, continua a tentar mostrar os podres de uma sociedade injusta e desiquilibrada.
Nesta década dos anos zero, Woody Allen realizou nove filmes, aproveitando-se apenas um: Match Point. Nesse mesmo período de tempo, Clint Eastwood realizou oito filmes, todos eles recomendáveis. A diferença para isso poderá estar na forma como cada um vê e vive (n)este mundo. Woddy Allen é um burguês intelectualóide que nada sabe do que acontece fora das galerias de arte, museus, bibliotecas e restaurantes finos onde habita, rodeado de artistas, quase sempre falhados, ou gente que simplesmente adora não fazer nada e vive em férias permanentes. Já Eastwood é homem de outra estirpe. Pertence a uma old school em vias de extinção em que tudo gira à volta das pessoas. Suas vidas, desejos ou frustrações. São as pessoas que interessam e a forma como elas se relacionam. Pessoas com uma vida onde existem obstáculos que precisam ser ultrapassados e que não necessitam por isso de criar esses mesmos problemas sentados numa confortável cadeira de um psiquiatra, ou em longas e herméticas discussões sentados à mesa do restaurante da moda. Allen pensa nas coisas sem verdadeiramente as sentir, impossibilitado assim de as perceber. Eastwood vive as coisas e, sentindo-as, necessita percebê-las. Diferenças que fazem toda a diferença nos filmes que cada um faz.
Eu, da minha parte, depois de ver Vicky Cristina Barcelona, optei por cortar relações com Allen. Já relativamente a Eastwwod, após ver o seu mais recente Changelling – A Troca, só posso dizer que aguardo impacientemente por Gran Torino que estreará em breve.
0/5 // 4/5